Aral Moreira
Análise Interpretativista do Hino do Município de Aral Moreira-MS
POR JEFFERSON MACHADO
— 3069Em virtude ao 38º aniversário de emancipação político-administrativo do município de Aral Moreira, celebrado oficialmente no dia 13 de maio, e, em consequência ao Projeto de Lei, aprovado pelos vereadores da Câmara Municipal da região em questão, que torna lei a obrigação de cantar o hino da cidade nas escolas e demais eventos de caráter cívico, surgiu à motivação de realizar breve leitura interpretativa do hino do município de Aral Moreira-MS.
Executar tal tarefa equivale, porém, exaltar tamanha complexidade, visto que demanda dos leitores, além de conhecimento acerca dos aspectos sintático-semântico, quais sejam: sintático: a função que cada palavra exerce no contexto de escrita e, Semântico: o significado que as palavras ganham, conforme o contexto apresentado. Exige, ainda, o conhecimento de mundo de tempos passados, ou seja, o conhecimento da história do município de Aral Moreira. Partindo do pressuposto de que para ler, interpretar aspectos de historicidade do hino focalizado é necessário conhecer a contextualização histórica, assim, para melhor visualização, apresentamos, a seguir, breve sequência cronológica decorrente de estudos exaustivos do presente autor, na qualidade de mestrando.
A partir de entrevistas realizadas com sujeitos considerados pioneiros de Aral Moreira, de (re)leituras de documentos oficiais (Atas, Fotos, Jornais e demais registros) e de referências bibliográficas (Livros e Trabalhos Acadêmicos) que tratam da questão do desbravamento histórico do município de Aral Moreira, pode-se elencar que os acontecimentos históricos marcantes se desenrolaram da seguinte forma: I – Rio Verde do Sul (1.883 a 1.940), com o Ciclo da Erva-Mate; II – Colônia General Dutra e Vila Fronteira Rica (1.940 a 1.975), com o declínio do Período da Erva-Mate e expansão da Extração de Madeira, em consonância com o Cultivo de Café, e ainda, o III – Aral Moreira (1.975 a 2.014), já emancipada, com a decadência da Madeira e do Café e o aumento significativo da Agropecuária, produção considerada pertinente no que tange a economia da região.
Com base nas informações elencadas acima, nota-se, a complexidade de se realizar a leitura interpretativista do hino de Aral Moreira, mesmo que seja de maneira breve, pois além da composição musical em versos caracterizada como uma das mais antigas formas assumidas pela Poesia, o hino retrata, ainda, a história e a identidade de um povo, no caso específico, o povo cujo gentílico é denominado de “aralmoreirense”.
O hino, na qualidade de Gênero Textual, possui características peculiares, próximas a do Poema e a da Poesia, exercendo, por sua vez, a função de Canto Lírico, de invocação ou de adoração, que celebra uma divindade, um herói ou um acontecimento histórico. No caso em questão, faz-se menção a um acontecimento histórico, ou seja, a emancipação político-administrativa do município de Aral Moreira, situado na fronteira meridional de Mato Grosso do Sul.
Antes de apresentar o hino de Aral Moreira, por meio de fragmentos comentados, é imprescindível ressaltar a gentileza da Escola Estadual Eufrazia Fagundes Marques, situada no Distrito de Vila Marques, por ceder os documentos históricos, construídos por docentes de tal instituição, o que consta o hino do município focalizado exposto a seguir.
Hino de Aral Moreira
Salve, salve minha gente tão querida.
Salve, Salve o trabalho e a União.
Amarei Aral Moreira por toda vida
“Primeiro Grito de Civilização”
Na primeira estrofe, pode-se observar a presença marcante da interjeição “Salve”, que funciona no início do hino como saudação a “Gente de Aral Moreira”, atribuindo-lhes característica de “querida”. Isso evidencia o povo hospitaleiro dessa região, possível a qualquer turista notar o acolhimento afetuoso. A interjeição “Salve” também ratifica saudação ao trabalho, desde os primórdios, com o Ciclo da Erva-Mate, a Extração de Madeira, o cultivo de Café e, na contemporaneidade, o destaque com a Agropecuária.
Na passagem “Amarei Aral Moreira por toda vida; Primeiro Grito de Civilização,” evidencia-se o “grito de independência” político-administrativo do município de Aral Moreira, destacado com o recurso “entre aspas”, justamente devido à intertextualidade alusiva ao contexto histórico brasileiro vivenciado em 1.822, por meio do Grito de Independência do país. No hino, grita-se a Independência político-administrativa do município de Aral Moreira, que até o momento era distrito de Ponta Porã.
Rio Verde antigo: Fronteira Rica
Brilha a estrela no infinito céu azul
És orgulho desta Pátria Bendita
És Brasil, és Mato Grosso do Sul
Uma vez realizado o cumprimento à população de Aral Moreira pela interjeição “Salve”, exemplificada na primeira estrofe do hino. A segunda estrofe traz à tona a localização do município, sendo uma cidade, Aral Moreira, do Estado de Mato Grosso do Sul, do país Brasil.
O Rio Verde do Sul (1.883 a 1.940), citado no hino, faz referência ao primeiro nome da região, que de acordo com depoimentos de pioneiros de tal localidade e levantamentos bibliográficos, nota-se que o território que forma o atual município de Aral Moreira foi, pela primeira vez, explorado no final do século XIX, com a fixação de gaúchos e paulistas, dentre eles, Tomás de Laranjeira, através de acampamentos no antigo território denominado Rio Verde do Sul. É fundamental, porém, mencionar a presença de indígenas naquela época de pelo menos dois subgrupos, a saber: Guarani Kaiowa e Guarani Nandeva. Além de paraguaios, que por se tratar de uma região, geograficamente, privilegiada por fazer fronteira seca (sem obstáculo: rio, ponte, etc.) com a República do Paraguay abriga povos oriundos de nacionalidades diferentes.
A variedade de nomes que o atual município de Aral Moreira e alguns distritos receberam durante todo seu desbravamento histórico foi diversificado, mas, o hino apresenta dois nomes, considerados significativos, quais sejam: o “Rio Verde do Sul” e a “Vila Fronteira Rica”. O primeiro nome pode fazer alusão ao Rio Verde que deságua no Rio Paraná, que no período de ocupação, banhava todo o antigo estado de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul. É importante ressaltar que tal localidade também ficou conhecida como Vila Caú. Assim, o atual distrito de Rio Verde do Sul pode ser considerado a primeira região a ser desbravada pelos ervateiros, no Ciclo da Erva-Mate.
Com o deslocamento de parte da população à Costa Rica, atual Distrito de Vila Marques, algumas famílias passaram a ocupar a “Vila Fronteira Rica”, citada no hino. Tal referência nominal reafirma a existência de dois países na fronteira de Aral Moreira com a República do Paraguay (Brasil e Paraguai). Além de reiterar a ideia de abundância desde o Ciclo da Erva-Mate, com mão de obra especializada, principalmente, de paraguaios; Extração de Madeira, com implantação de várias serrarias na região, o cultivo do café, até chegar ao que se encontra na contemporaneidade, a agropecuária, setor responsável pelo movimento da economia da região. Assim, a “Vila Fronteira Rica” era palco que atraia vários olhares de sujeitos que habitavam cidades circunvizinhas, tanto do lado brasileiro quanto no lado paraguaio, por conta, principalmente, de suas terras férteis.
Além dos nomes apresentados no hino, “Rio Verde do Sul” e “Vila Fronteira Rica”, o município de Aral Moreira recebeu o nome, por muito tempo, de “Colônia General Dutra” (1.940 a 1.975). De acordo com pesquisas exaustivas realizadas pelo presente autor, há a possibilidade de que ambos os nomes - “Vila Fronteira Rica” e “Colônia General Dutra” - foram usados em épocas similares, ou seja, em consonância. Por fim, numa sequência toponímica têm-se os seguintes nomes em ordem diacrônica: Rio Verde do Sul; Colônia General Dutra, em consonância, Vila Fronteira Rica e Aral Moreira, isso sem expor os nomes diversificados que os distritos receberam no decorrer do desbravamento histórico da região, como é o caso do Distrito de Vila Marques, anteriormente denominado de Costa Rica.
Salve, salve...
Campo de gado e matas douradas
Planalto de progresso e esplendor
Cultiva a planta da felicidade
Colhe a semente do amor.
A terceira estrofe inicia com a saudação às terras férteis do próspero município de Aral Moreira, bem como a abundância no setor agropecuário, o que confirma sua importância para a economia da região. Na passagem: “Cultiva a planta da felicidade”, podemos fazer analogia à Lenda do Antigo Oriente de uma árvore mágica (Planta da Felicidade ou Árvore da Felicidade), cuja premissa dizia trazer felicidades e realizações a todos que passassem por ela. Já o trecho “Colhe a semente do amor”, observa-se a alusão que o hino faz, especialmente, ao homem do campo, de modo geral, independente de sua posição social, ideológica, política, religiosa, dentre outras; com relação ao progresso de Aral Moreira.
Salve, salve...
Deus doutou-a de tanta beleza
Este meu torrão natal
Que nem canta um poeta
E nem sonha um mortal
A quarta estrofe também é iniciada com a interjeição “Salve”, evidenciando, agora, o amor de Deus para/com a região e o estendendo aos habitantes de Aral Moreira, dotada de tamanha beleza “que nem um poeta” é capaz de descrevê-la e que nem um mortal é capaz de sonhá-la. É importante destacar que a estética de Aral Moreira apresentada no hino, é uma beleza incomparável, admirável e indescritível. Por este motivo, não a descrevemos, apenas sentimos!
Entrelaçamento de raças gigante
Povo audaz valente destemido
Forte gentio, heróicos brasiguaios,
São todos teus filhos
Oh! TERRA QUERIDA.
A última estrofe reafirma a miscigenação social, cultural, étnica, religiosa, dentre outras; existente na fronteira de Aral Moreira com a República do Paraguay, desde os primórdios até a sua emancipação político-administrativa. A estrofe caracteriza, ainda, o povo aralmoreirense como “audaz”, “valente”, “destemido”, “forte”, “gentio”, “heróico” e “brasiguaio”. Em outras palavras, povo guerreiro, ousado e dentre outros adjetivos que seguem tal sinonímia. Chamo atenção para a palavra: “brasiguaio”, que por sua vez, reitera a mescla de composição populacional de Aral Moreira, a saber: brasileiros, paraguaios, indígenas, brasiguaios, imigrantes sulistas, dentre outros, que juntos compõem uma cidade singular.
A estrofe reafirma, também, a influência que a região de Aral Moreira sofreu no decorrer dos anos, com a presença de povos “mestiços”, advindos de outras regiões do Estado, do país e, inclusive do país vizinho, a República do Paraguay. Destacam-se: gaúchos, paranaenses e paulistas. As Influências perpassam a culinária, como o arroz de carreteiro, o churrasco, a sopa paraguaia, a cuca, o vori-vori, dentre outras. A bebida, como o tereré, o chimarrão, o vinho, etc. A dança, como o vanerão, o chamamé, a katchaka, os rituais indígenas, etc. O aspecto linguístico com a presença de línguas como: o português, o espanhol, e a junção das duas que equivale ao portunhol. O espanhol e o guarani, e a junção das duas que equivale ao jopará; e demais variantes distribuídas entre padrão e não-padrão. Portanto, observa-se que a fronteira de Aral Moreira com a República do Paraguay é um universo híbrido, composto pelo mosaico cultural de um povo mestiço que desenha a cada amanhecer a história da região, destacando assim, a identidade fronteiriça no cenário estadual, nacional e internacional.
Ainda na última estrofe, o trecho: “São todos teus filhos. Oh! TERRA QUERIDA,” nota-se alusão aos povos fronteiriços de variedade étnica que compõe a fronteira pirotesca e “rurbana” de Aral Moreira com a República do Paraguay. Desse modo, reafirma, que independente de cor, raça, credo, etc; são todos filhos de Aral Moreira. É importante mencionar que a nossa intenção aqui, não era a de realizar uma análise exaustiva, apenas elencamos alguns pontos considerados pertinentes para a interpretação do hino do município, do ponto de vista de sua historicidade.
Por fim, finalizo a análise interpretativista do hino de Aral Moreira com um singelo Poema.
Aral Moreira, Meu Lugar!
Uma cidade pacata
Com seu ritmo de vida peculiar
Essa região me encanta
Certamente a fronteira é singular!
No seu interior encontram-se diversidades
Como qualquer outro lugar
Minha terra querida venha apreciar!
Intitulada Aral Moreira
Índios, paraguaios e brasileiros se misturam neste belo lugar.
O povo dessa região é caracterizado como hospitaleiro
Na culinária as mulheres mostram os seus dotes regionais
Como, por exemplo, no arroz de carreteiro.
Hereditariedade que vai passando de geração a geração
Até convidam os turistas para comer sopa paraguaia, chipa, coquito
Acompanhado de um delicioso café ou chimarrão.
O produtor experiente
Planta soja e outros soldados verdes enfileirados
Contribuindo para o sustento de toda essa gente.
Mulheres guerreiras, moças de fé
A religiosidade é viva
Na cidadezinha do tereré.
A música e a dança têm lugar especial
A katchaka, o chamamé, a guarania e a polca
Todos dançam neste local.
Das ruas de Aral Moreira vou me despedindo
Mas no meu Mato Grosso do Sul vou ficando
Com a saudade em meu interior
Agradecendo imensamente ao Criador.
(Jefferson Machado Barbosa).
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