• Domingo, 07 de Junho de 2026

Sinal vermelho para o centro de formação de condutores, por Jefferson Machado

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O título é bastante sugestivo no sentido de repensar como os docentes de Autoescola estão atuando na formação de futuros condutores de veículo, mais especificamente, os do Sul de Mato Grosso do Sul - MS. O presente texto surgiu, originalmente, da experiência de minhas aulas no curso técnico-teórico de um Centro de Formação de Condutores, localizado no Estado de MS. Em função de sigilo e ética, não citarei aqui o nome da Autoescola, que defende em seu slogan: “educar com seriedade”, quando na realidade, não faz jus à frase utilizada para conquistar a credibilidade, principalmente, do futuro condutor.

 

O interesse em escrever um texto que relatasse minha experiência durante as aulas teóricas surgiu da necessidade de compartilhar com os leitores, minha insatisfação com os “serviços comprados”, digo comprado, porque o primeiro obstáculo que encontrei na busca pela Permissão para Dirigir (PPD) e, posteriormente a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) definitiva, foi, justamente, o preço. De fato, os pacotes oferecidos são de custo muito alto, o que acaba gerando um desconforto expressivo no bolso do consumidor.

 

Com a expectativa de que as aulas teóricas iam me dar todo o subsídio necessário para aprender e se conscientizar das informações relativas ao Código de Trânsito Brasileiro (CTB) tive que reorganizar todo meu horário, de modo que fosse compatível com o horário das aulas ofertadas pela Autoescola. Nesse sentido, para antecipar a finalização do curso técnico-teórico, resolvi, matricular-me em ordem, em outras palavras, em sequência, aula 1, aula 2 e assim sucessivamente.

 

Fechei o pacote e com ele veio um “Manual para o futuro motorista”. Aproveito a oportunidade para deixar registrado que o vocabulário utilizado no Manual era complexo. Ainda mais se levarmos em consideração que as turmas eram bastante variadas, desde a faixa etária até a organização socioeconômica. Entendo que seja difícil para uma pessoa que está ali, muitas vezes, apenas para tirar a CNH para ter condições mínimas de procura a trabalho, outros que interromperam seus estudos, e ainda, aqueles, que há muito tempo não frequentam a escola. Desse modo, o Manual para o futuro motorista não deveria ter uma linguagem de acesso a todos?

 

Está enganado quem pensa que só adolescente de 18 anos tira a CNH, a sala, pelo menos as três turmas que tive contato era bastante diversificada. Nessa perspectiva, outro obstáculo surgia, o vocabulário do Manual, as regras, as leis, a forma como se apresentavam no livro era extremamente ambígua e, sobretudo complexa! Acredito que na elaboração do “Manual para o futuro condutor” não pensaram numa clientela diversificada. Dessa maneira, eu via muita senhora e senhor tendo muitas dificuldades com o bendito Manual. Outro fato que me chamou a atenção foi à unanimidade dos dizeres de docentes admitindo não gostar de utilizar o “Manual”, nesse sentido, as aulas teóricas eram baseadas em experiências diárias e vídeos.

 

Na análise que se segue, procuro problematizar apenas alguns dizeres de docentes, dos quais julguei serem pertinentes para o momento. Os dizeres foram coletados durante as aulas teóricas da Autoescola.

 

Numa das aulas de Primeiros Socorros o professor disse: “Quando tiver um acidente, não deixa ninguém se mexer, seja macho!”. (grifos meu). Veja que na fala do professor pode-se observar o preconceito com relação, principalmente, às mulheres. Só macho que pode prestar socorro? Só macho que sabe controlar a situação? De acordo com o dizer, só com a atitude de macho que se comanda uma situação de primeiros socorros. Nesse sentido, as mulheres precisam assumir posturas, das quais os homens não precisam assumir. O enunciado só reafirma os paradigmas de uma sociedade machista, mesmo diante de todas as discussões, textos e teorias feministas levantadas pela academia.

 

Já a aula de “Legislação” foi marcada pela seguinte passagem do docente: “eu conheço quando o selo é do Brasil ou falsificado, dos hermanos”. (grifos meu). Tem-se nessa fala, a posição do sujeito brasileiro com relação ao estrangeiro. A diferença de qualidade de produtos de países, desse modo, os produtos brasileiros são bons, enquanto que os produtos de outros países não são bons, são falsos, ruins e tantos outros adjetivos utilizados para caracterizá-los. Através de uma unidade lexical, “hermanos”, pode-se identificar que o produto classificado, segundo o professor de Legislação como ruim, é de um país hispânico. Traz-se a ideia de relação de poder, de dominante x dominado.

 

A cada aula que passava, minha indignação era ainda maior! O enunciado a seguir foi proferido por um professor durante uma das aulas denominada “Meio Ambiente e Convívio Social”. “Quem aqui já fez chapinha, escova progressiva, escova inteligente, esses negócios de mulher né, pra ficar bonita?”. (grifos meu). Veja que a concepção de beleza do professor é extremamente limitada. Na sua visão, a mulher que não possui as características por ele proferidas “progressiva, escova inteligente, chapinha” é classificada, por ele, como desprovida de beleza, para não dizer feia! E ainda, completa dizendo que fazer “progressiva, escova inteligente, chapinha” é coisa só de mulher. Ou seja, na sociedade contemporânea, é notória a vaidade de homens, quando o assunto é beleza, mas, infelizmente para o professor, parece que há uma fronteira de distanciamento grande entre o universo masculino classificado por muitos como “metrossexual” e a sua posição com relação a concepção de beleza masculina, imposta de forma subjetiva na sua fala. (só mulheres que fazem escova, chapinha, etc.  Homem que é homem não faz isso).

 

A aula intitulada “Mecânica” foi marcada pelo preconceito, principalmente, com relação aos homossexuais. O professor, senhor de cara fechada, sério e extremamente conservador disse num tom irônico: “tem que aprender a trocar o pneu do carro, porque tem alguns viadinhos que não sabem nem trocar pneu”.  (grifos meu). A fala do professor expressa à fragilidade de “alguns viadinhos” com relação ao suposto serviço de macho, o de trocar o pneu de um carro. Embora a unidade lexical “viadinho” não conste designada no dicionário de língua portuguesa, o valor semântico-lexical cultural já expressa que “viadinho” é o diminutivo de “viado”, que ora funciona como sinônimo de homossexual.

 

“Deus existe mesmo, porque para dar chance para este corpo dar sequência no negócio, só Deus mesmo”. (grifos meu). Observe que na fala do professor de “Primeiros Socorros”, há uma ligação muito forte com os dizeres religiosos, principalmente, pela influência da igreja católica na sociedade ocidental. Chamo a atenção do leitor para a palavra “corpo”. Quando a pessoa morre, geralmente, não se faz referência a ela pelo nome, mas de “corpo do falecido”. A ideia de “corpo”, justamente, por estar ali apenas o corpo da pessoa, uma vez que seus sentidos já não estão em “pulsação”. Observa-se ainda, na passagem “sequência no negócio”, como sendo dar sequência na vida, que não deixa de ser um “grande negócio!”

 

Por fim, reuni apenas alguns dizeres para compartilhar com o leitor, a meu ver, a ausência de treinamentos – por meio de cursos de capacitação – aos professores (instrutores) de Autoescola com relação à Interculturalidade da sala de aula. Sinal Vermelho Para o Centro de Formação de Condutores que não levam em consideração a miscigenação presente em nossa sociedade, tão discutida na contemporaneidade em conceitos interculturais.


Jefferson Machado Barbosa – Mestrando em Letras – UFGD

Pesquisador em Linguística Aplicada – Capes

 

 



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